Vida à bordo #1: Tripulante de primeiro contrato

Gente, quanto tempo sem postar!

Meu último post foi a página Trabalhando em Navios, que eu escrevi pouco antes de embarcar no meu primeiro contrato com a Costa, contando sobre todo o processo de seleção e pré-embarque.

Foram 8 meses e 15 dias de trabalho no navio Costa Magica, e bota trabalho nisso! Todos os dias, em torno de 11 horas por dia. Parece maluquice? Mais maluco ainda é desembarcar e ficar desesperada pra voltar! Quando o bichinho do mar te pica, não tem jeito… é permanente (ou quase).

Nesse primeiro embarque passei pelo leste Caribenho, atravessei o Atlântico, dei uma passadinha pelo Mediterrâneo e subi pro Mar Báltico. Eu tava na Rússia, e teve Copa!! Foram mais de 20 países e mais de 50 ímãs de geladeira para a vovó.

Grand Anse Beach em Grenada – Leste Caribenho

Top of the Rock em Gibraltar, território Britânico no Mediterrâneo

Meu pub preferido em Tallin, Estonia

Voltei pra casa em setembro do ano passado e decidi aplicar para outras companhias. Fui chamada muito mais rápido do que eu esperava, e em outubro de 2018 estava embarcando no Silver Explorer, navio de expedição da empresa Silversea.

Eu ri e me diverti muito, mas também sofri e chorei. Ah, como eu chorei! De saudades, de stress, de exaustão e de coração partido. Parti também alguns corações, hehe. Mas, como diria o Rei, o importante é que emoções eu vivi. E chegou a hora de compartilhar com vocês um pouco dessas histórias.

Neste post vou focar mais em falar sobre a vida e o trabalho à bordo do meu primeiro embarque no Costa Magica, deixando as histórias de viagens para outros posts mais específicos (dividido por cidades, países, etc).

Primeiras semanas

Meu embarque foi em Aruba, em dezembro de 2017 nas Antilhas Holandesas. Logo no hotel, na noite antes de embarcar, conheci ele que viria a ser meu melhor amigo à bordo: o Brunno. Lembro de entrarmos na piscina do hotel e compartilhar os nossos medos e expectativas. Mas depois de ler tantos relatos e histórias de outros tripulantes no Facebook, nós estávamos bem preparados, pro melhor e pro pior. E acho que isso fez muita diferença, pois a rotina é bem pesada mesmo, e muitas pessoas se assustam com o volume de trabalho no início.

Acho que o pior nesse comecinho foram as dores no pé. Eu acabei não levando a tal da palmilha de silicone, que muitas pessoas frisaram ser importantíssima. Nossa, mas eu sofri, viu? A sensação é semelhante àquela primeira semana de academia, só que numa escala muito maior. De qualquer forma eu já tinha lido muitos relatos e conselhos dizendo “Aguenta que passa”, e não é que é verdade? O corpo humano é incrível e se adapta a tudo. Depois de conseguir a palmilha de gel e umas três semanas naquela rotina e eu já não sentia mais nada, e a partir daí o trabalho flui e você começa a aproveitar os benefícios dessa vida louca de navio.

Morando em uma cabine

Minha primeira cabin mate (colega de cabine) foi uma filipina, mas logo eu mudei e passei a dividir com a minha amiga e irmã linda, a Héryka. E é assim que você passa a ver seus amigos à bordo, eles se tornam uma família, assim como sua cabine se torna a sua casa. Como minha posição era bem baixa, a minha cabine era para duas pessoas (com beliche) e o banheiro compartilhado entre duas cabines. Como eu já dividia apartamento antes de embarcar, para mim foi bem tranquilo e não muita novidade. Talvez para algumas pessoas seja um baque maior, mas tendo flexibilidade e respeito é possível viver em completa harmonia.

A Héryka tinha namorado e eventualmente eu tive também, e isso pode ser um pouco complicado de lidar quando se divide uma cabine micro. Mas no fim deu tudo certo, e acabou que nós quatro ficamos muito amigos, sempre saindo juntos também.

Aliás, eu não sei como funciona isso de namorado(a) em outras companhias, mas na Costa é bem tranquilo. Mais uma vez, o importante é manter sempre o diálogo e o respeito com a pessoa que mora com você.

Sobre o Trabalho

Minha posição à bordo era a de F&B Attendant (Food & Beverage). Essa posição é como se fosse uma carta coringa da companhia, pois eles podem te “jogar” tanto para a Saleta (refeitório dos tripulantes), quanto para o Buffet do navio quanto para um dos restaurantes principais. No meu caso, eu comecei no Buffet e em alguns dias fiquei responsável por uma das estações de café. Eu precisava abrir/montar a estação para o café da manhã, com canecas, copos, chá, açúcar, limão, leite, etc. Parece simples, mas o que complicava era a briga entre as estações por material, já que o café da manhã era o momento mais cheio do Buffet (pois os passageiros queriam comer para sair e passear). Então esse era o horário da correria. O almoço e o jantar no Buffet são bem mais tranquilos, já que à tarde as pessoas estavam geralmente fora do navio e à noite a maioria preferia o restaurante. No fim da noite limpávamos tudo, cada um com uma função – a minha era varrer e passar o mop.

Já no restaurante você executa um trabalho de Assistant Waiter (assistente de garçom), tendo uma estação ou duas para cuidar, auxiliando o(s) seu(s) garçom(ns). No meu caso, eu tinha apenas um Waiter, e meu trabalho era preparar os itens para a estação dele no início (cesta de pães, água, vinhos, balde de gelo, etc), sendo que alguns assistentes também fazem o setup da mesa (que é trabalho do Waiter) para ganhar um extra. Sim, o que mais tem no navio é gente que paga para você fazer o trabalho dele!! Eu por exemplo, pagava um indiano para esconder as minhas cestas de pão (de novo aqui a briga por material). Enfim, como o restaurante tem dois turnos meu trabalho também era lavar todos os copos, taças e talheres para preparar as mesas novamente. Calma, a gente não lava na mão, claro, só leva pra dentro da Galley (“cozinha” do navio) e coloca tudo na máquina. Mas com muito cuidado e vigiando sempre pra não pegarem seu material. É quase uma selva…

Sobre os Horários

O primeiro turno começava por volta das 6h ou 6h30 (dependendo do porto), num turno de 2h30. Então eu tinha um intervalo até as 12h, que era o horário que eu ia sair ou descansar. Nesse início eu saía mais, pois estava ainda cheia de energia e EU AMO PRAIA! Acredito que curti muito o Caribe, e todos os seguranças conheciam a mim e ao Brunno, os brasileiros doidos que sempre voltavam correndo pro navio às 11h55 (hehe).

O segundo turno ia das 12h às 14h30. Quando estávamos no Caribe, uma vez por semana ganhávamos um lunch off, tendo folga nesse período – o que permitia quase um dia inteiro fora, já que estávamos livres de 9h às 16h30. Mas isso varia de maitre para maitre, tanto é que o cara que entrou depois parou com essas folgas alternadas.

O terceiro turno era o maior, das 16h30 até as 22h30. Eu lembro que no começo esse turno era como a morte pra mim, mas no fim das contas passou a ser o meu preferido! Não sei bem explicar porquê, acho que era quando tínhamos mais tempo de conversar (rs) e mais autonomia de trabalhar sem o supervisor em cima.

Esse horário mudou quando fui para o restaurante (o que também aumenta seu salário e bônus), lá eu entrava um pouco mais tarde à noite (começava às 18h) e não tinha hora pra terminar, então a gente dependia da sorte do passageiro terminar de jantar e não ficar a vida toda conversando na mesa (rs). Mas geralmente terminava entre as 23h e 23h30.

Vantagens

Mas vale a pena viver assim, com tão pouco tempo livre? Você consegue sair e se divertir? Muita gente me fez essas perguntas quando eu voltei. A resposta é DEPENDE. Primeiro de tudo, é importante achar um equilíbrio, pois se você se forçar a sair em todos os seus horários livres, seu corpo simplesmente não aguenta. Pelo menos 1h de sono no meio do dia é essencial pra dar uma recuperada, porque dormir só à noite não é suficiente. Mas fora isso, eu conseguia sim sair muito e curtir. E nessa vida doida colecionei várias cidades e várias experiências. E quando eu comparo isso a vida que tinha antes no Rio de Janeiro, pagando aluguel e contas e chegando quase zerada no fim do mês sem conseguir viajar… Eu simplesmente não consigo mais voltar àquela rotina. Meu coração agora é do mar (que brega kkk)!!

Vida pós-Costa

Bem, essa foi a minha experiência em 8 meses e meio na Costa Crociere. Assim que eu desembarquei, apliquei para várias companhias e, como mencionei acima, agora trabalho para a Silversea, que é mil vezes melhor, em todos os aspectos. Mas isso vai ficar pra outro post. 😉

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